Faz sentido celebrar o Halloween? – Menos Doces, Mais Amor

Hoje será noite de Halloween e ainda bem que amanhã é feriado, pois isto de preparar o Halloween é física e psicologicamente extenuante!

Quem é pai sabe que isto do Halloween não tem uma logística fácil, a competição pela originalidade é serrada e depois há a brincadeira do «Doces ou travessuras» onde por um lado tu queres deixar o teu filho ir fazer como se vê nos filmes, mas por outro lado o coração aperta só de pensar em deixares o teu filho sair para a rua a bater às portas a pedir doces. Há qualquer coisa aqui que não bate certo, não é? Afinal de contas quando éramos pequenos sempre nos ensinaram a não aceitar doces de estranhos e agora a ideia é que tu deixes o teu filho ir com outros miúdos pedir doces a estranhos?

Quando eras criança nunca ouviste falar do Halloween, no máximo era o Dia das Bruxas. No final da adolescência o Halloween era uma coisa americana que na prática não passava de um tema para uma festa na discoteca e para te vestires de bruxinha sexy, mas agora que viraste mãe apercebes-te que algures no tempo os costumes alteraram-se e o Halloween passou a ser uma data bastante importante na sociedade Portuguesa e aparentemente em todo o mundo ocidental.

Porque é que o Halloween ficou agora tão importante e comemorável?

Talvez aches que esteja a exagerar, mas se recuares 30 anos irás ver-te como criança e a recordação que tens da última semana de Outubro era os teus pais a prepararem-se para comemorar o Dia de Todos os Santos e depois iam ao cemitério no Dia dos Finados prestares-lhe homenagem. Daqui a 30 anos a recordação que o teu filho terá sobre a última semana deste mês será a dos pais a organizarem o Halloween e portanto terás de concordar comigo que a sociedade portuguesa, por conveniência da indústria dos doces, fantasias e festas mudou os seus costumes e agora celebra o Halloween.

Já agora, o teu filho sabe realmente o que está a celebrar? O que é o Halloween e de onde vem?

O professor do teu filho sabe explicar-lhe o que está a celebrar? O que é o Halloween e de onde vem?

Tu sabes explicar ao teu filho o que está a celebrar? O que é o Halloween e de onde vem?

Alguém que tu conheças sabe a origem da brincadeira «Doces ou travessuras»?

Tu sabes?

Pois, eu também não sabia mas como me cheirava a extorsão resolvi investigar, uma vez que ninguém até agora me havia explicado concretamente de onde veio esse tal de Halloween, até porque nunca me fez muito sentido associar um ritual milenar do povo Celta que não tinha medo nenhum da morte nem dos mortos (muito pelo contrário) a criancinhas vestidas de seres que os Celtas que celebravam o Samhain nunca iriam ouvir falar na sua vida, a ameaçar que ou lhes dão doces ou fazem travessuras.

Por outro lado havia pessoas que me diziam que essa brincadeira derivava do Souling, mas crianças de porta em porta pedir o Bolo das Almas ou o Pão por Deus (bolinho) não me parecia ter qualquer ligação ao conceito -“trick or treat” que também não me fazia sentido ser traduzido como «doce ou travessura» e foi assim que surgiu o artigo «Faz sentido celebrar o Halloween?» [Link] onde podes ficar a conhecer uma série de factos históricos sobre o Halloween, bem como uma série de histórias e estórias mal contadas.

Nesse artigo [Link] coloco-te também a seguinte questão:

Será que a importação desta história mal contada poderá ter um efeito igualmente negativo nas nossas crianças como a importação do Fast Food?

Tão negativo não sei, mas se já leste o artigo [Link] talvez já não te faça assim tanto sentido este fomentar e estimular uma brincadeira que teve por base o poder de extorsão e perseguição de uma maioria sobre uma minoria. Claro que poderás sempre achar o que estou a escrever um exagero pois é tudo apenas e só uma simples brincadeira, mas como no mapa mundo das crianças que fazem bullying elas não são más pessoas e só estão simplesmente a brincar, quero convidar-te a reflectires no que estás a comunicar com a brincadeira do Halloween e do «Doces ou travessuras?»

Na terceira parte desta trilogia de Artigos [Link], vou abordar alguns pontos onde poderemos compreender melhor também como esta brincadeira aparentemente inocente de Halloween pode mexer com a auto-estima da criança.

Por agora quero mostrar como poderás entender melhor se esta ‘febre’ do Halloween tem mesmo alguma ligação com a indústria do Fast Food e guloseimas e como podes contornar esta situação:

1) Se não havia grande problema em entupir as crianças de doces por uns dias há trinta anos atrás, uma vez que as guloseimas eram por norma apenas para os dias de festa, agora que metade das crianças têm excesso de peso, este acrescento de doces às toneladas diárias de açúcar que as crianças já ingerem parece-me, no mínimo desaconselhado.

Claro que as pessoas também podem aproveitar esta tradição como mais uma excelente forma de se desresponsabilizarem do excesso de gordura que os seus filhos eventualmente possam ter, pois este é um excelente exemplo que a culpa dos seus filhos estarem obesos não é das porcarias que eles compram lá para casa para todos comerem e sim desta nova sociedade que nos obriga a viver assim. – «Ah e tal… Eu por mim até tinha um estilo de vida activo e saudável e inspirava a minha família toda a tê-lo mas com uma sociedade como esta é impossível, pois quer queiramos ou não somos obrigados a ceder a esta pressão social…»

 

2) É natural que quando te tocarem à porta o teu cérebro te leve à imagem que vias nos filmes americanos dum grupo de miúdos reguilas com uma série de travessuras preparadas e no meio um ou dois gordinhos que nos filmes eram sempre os que eram apanhados quando a coisa corria para o torto. No entanto como os miúdos estão todos os anos cada vez mais gordinhos, o mais certo é veres um grupo de gordinhos a tentarem-te assustar, sendo que se tu fores daqueles acha que a piada desta noite está em pregar um susto aos assustadores o que vais ver à tua porta é um grupo de presas fáceis e a coisa começa a roçar o ridículo, mas não de preocupes que piora, continua a ler…

 

3) Como a maioria das crianças actualmente são ‘presas fáceis’ devido ao facto de, regra geral, serem muito mais gordas devido ao que comem e ao facto de não brincarem na rua, o que as torna muito menos ágeis e naturalmente com muito pouca ‘manha de rua’ e os papás são muito mais medrosos devido ao facto de vivermos numa sociedade aparentemente mais perigosa para as crianças e também simplesmente porque os pais actualmente são mesmo muito mais medrosos relativamente aos seus filhos, é muito comum vermos na noite de Halloween grupos de crianças de porta em porta a ameaçar travessuras acompanhados pelos papás para se sentirem mais seguras e aqui a coisa começa a entrar mesmo no campo do ridículo e do perverso.

Vamos lá clarificar aqui o conceito de travessuras antes de avançarmos, ok?

Travessuras é quando o teu filho (sozinho ou acompanhado) faz merda e mediante o seu grau de gravidade tu podes simplesmente achar graça e dizeres ao teu filho para não repetir muito isso porque a outra pessoa pode não gostar ou chegares ao ponto de teres que ter uma conversa muito séria com ele porque descobriste que o que ele fez foi bem grave e isso não se pode repetir.

Ora aqui a parte do ‘descobriste’ perde o sentido quando vais fazer de segurança ao teu filho para ele fazer travessuras, ou então de Árbitro de Brincadeiras (coisa muito em voga actualmente no mundo dos papás), sendo que ao te fazeres de Árbitro de Travessuras (colocando-me nos sapatos de uma criança) o conceito de ir fazer travessuras e levar o papá ou a mamã para dizer que travessura posso ou não fazer não me parece o programa mais entusiasmante, mas enfim…

Deves concordar comigo que a imagem de um grupo de crianças reguilas e assustadoras que te vão bater à porta para extorquir doces transforma-se numa imagem um bocadinho ridícula de um grupo de fofinhos armados em maus com o papá ou a mamã a protege-los.

Se te estás a sentir incomodado com o que estás a ler convido-te a regressares mentalmente à tua infância e imaginar qual seria a reacção dos teus amigos se lhes propusesses o seguinte:

«Malta, bora ir esta noite de porta em porta pedir doces e pregar travessuras a quem não der, mas pelo sim pelo não levamos os nossos pais caso a coisa dê para o torto! Bora?!»

Pois… Ias ser gozado pelos teus amigos no mínimo durante uma semana, não era?

Para além do ridículo da questão um pai ou uma mãe que faça isso está a comunicar ao seu filho que não há mal nenhum em nos juntarmos e andarmos por aí a extorquir coisas às pessoas.

Se és daquelas pessoas que agora está a achar que o que acabaste de ler é ridículo pois isto é apenas uma brincadeira de crianças, o que eu tenho para te dizer é que também é uma brincadeira de crianças abordar as ‘presas fáceis’ e extorquir-lhes cromos ou outras coisas só pelo divertimento. As brincadeiras são divertidas quando as duas partes acham graça e tu podes usar as brincadeiras e até mesmo as travessuras como uma oportunidade para o teu filho praticar uma das características mais importantes para quem vive em sociedade, a empatia. – Na ultima parte desta trilogia de artigos [Link] irei explorar mais esta questão.

4) Outra questão relevante é o facto de estares a colocar as bruxas no mesmo saco dos vampiros, zombies e outros seres horríveis do mal, o que é lamentável especialmente se fores mulher pois estás a perder uma enorme oportunidade de empoderares as mulheres. Na minha perspectiva uma excelente forma de criares uma filha empoderada ou um filho que encare sinceramente a mulher com igual valor (coisa socialmente aceite mas que não passa de uma enorme hipocrisia na sociedade actual) é explicares-lhes bem o que eram realmente as bruxas.

No caso das bruxas tens a oportunidade de explicar à tua criança que as bruxas não eram velhas maléficas com verrugas no nariz que comiam criancinhas. Eram mulheres que acreditavam numa religião bem anterior à Cristã e com algumas características bem diferentes e bastante perigosas para esta que queria impor os seus dogmas à força, pelo que conceitos como os abaixo descritos chocavam com o que a religião Cristã da altura queria impor, nomeadamente:

– Igual valor e poder entre homem e mulher, bem como Deus e Deusa

– Associação da sabedoria à mulher

– Mulher como ser sexual dona da sua vontade e senhora do seu poder

– Faz o que tu queres desde que não prejudiques ninguém

A promessa de casamento na Wicca era «Por quanto tempo durar o amor.» em vez da tradicional Cristã «Até que a morte nos separe.»

Quaisquer dos conceitos acima eram antagónicos aos da religião Cristã e a juntar a isso a enorme segurança e sensualidade da mulher Wicca bem como os seus poderes espirituais/mágicos e forte ligação à natureza tonaram-nas alvos a abater pelos poderes instituídos, tanto os religiosos como simplesmente pelos os homens que pretendiam uma sociedade onde o valor da mulher fosse praticamente nulo. Assim, na altura o conceito era se eras Cristão e conseguias algo difícil de explicar era considerado milagre devido à tua fé, se não fosses Cristão esse mesmo fenómeno já era considerado magia/bruxaria.

Como as Wiccas (Witch = Bruxa) novas eram extremamente seguras de si como mulheres e como ser sexual, o que as tornava perigosamente sensuais, apetecíveis e difíceis de controlar, uma solução eficaz para afastar os ‘homens de bem’ das bruxas era com a propaganda de que a imagem sensual que eles viam não passava de bruxaria, pois assim que fossem cativados por elas, estas os aprisionariam com um feitiço para depois os obrigarem a fazer tudo o que elas quisessem sendo que aí elas já poderiam voltar a sua forma normal que era de velhas, corcundas, horríveis e nojentas, imagem que perdura até aos dias de hoje.

Cada um educa os filhos como quer, se tu queres educar os teus filhos com o dogma que uma mulher dona e senhora do seu corpo e vontade por sexo é uma meretriz e está mesmo a pedi-las é uma opção tua. Eu prefiro educar o meu filho com o conceito que a mulher tem igual valor ao homem e igual valor significa que da mesma forma que ele tem todo o direito de, se assim o entender, ter mais de cem aventuras sexuais durante a vida, também qualquer mulher o tem e isso não o torna a ele nem um garanhão nem ela uma meretriz, são simplesmente escolhas e experiências que cada um queira passar. Até porque tal como dizem os Wiccas, faz o que tu queres desde que não prejudiques ninguém.

Sendo assim, quando o meu filho me perguntar o que eram as bruxas, o mais provável será eu dizer-lhe que eram umas mulheres muito giras e marotas que davam a volta à cabeça do homens e como estes não as conseguiam controlar houve um grupo de pessoas que começaram a inventar uma série de estorinhas para assustar as pessoas.

Esta foi a minha contribuição para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

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3 comentários no post “Faz sentido celebrar o Halloween? – Menos Doces, Mais Amor

  1. Ahahahah gostei! Levar a pensar os outros é tarefa difícil. O grave é que a nossa sociedade “evoluída ” está tão manipulada que acabam por fazer as coisas porque sim! À tempos estive a ver um documentário sobre a dependência do açúcar e as marcas que fomentam essa dependência porque vale milhões à indústria farmacêutica e as marcas de fast food!! Verdadeiramente assustador. Aconselho a ver…
    A nossa sociedade está frágil e é lamentável perdermos verdadeiras tradições em prol do consumo e do vaidosismo ( existe esta palavra?! ) o Ter é preferível do que o Ser! É isso que se vê no dia de todos os mortos e em todos os dias…..mas isso agora, iria gastar muito espaço nesta caixa de comentários!! A minha filha foi brincar no bairro eu deixei…..mas ela sabe o significado do dia tanto em português como no americano como também na visão espiritual da coisa! É importante falar é importante dar mos as ferramentas necessárias aos seres que um dia terão na mão o poder de fazer diferente! Não porque sim, mas porque é necessário e urgente criarmos seres pensantes!!!


  2. Gostei imenso deste artigo, e sou totalmente de acordo, tradições que nem são nossas e as pessoas nem sabem a história dela, por mim, não faz sentido nenhum está comemoração.


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