Sugestão de Leitura para Pais: «Kafka e a boneca viajante» de Jordi Sierra

Quando as crianças perdem algo importante para elas e choram ou ficam muito tristes, por norma os adultos optam por estratégias pouco interessantes que pouco ou nada fortificam a relação com a criança:

– Pedem para a criança não chorar. – «Vá lá não chores, já passou.» – «Passou uma ova! Dizes isso porque não foste tu que perdeste uma coisa que gostavas muito.»

– Desvalorizam o assunto e o sofrimento que a criança está a ter. – «Então… não fiques assim, era só uma boneca.» – «Não era só uma boneca, era Brígida, a minha amiga! Se não compreendes isso, tudo o que disseres sobre este assunto a partir de agora não terá qualquer impacto em mim.»

– Desviam o assunto oferecendo uma recompensa. – «Olha, vamos comer um gelado para te sentires melhor?»  – «Agora não! Eu não estou com vontade de comer um gelado, estou com vontade de chorar! Deixa-me em paz! Hum… Espera aí… Tu ofereceres-me gelado?.. Hum… Então quando eu choro eu ganho coisas que normalmente não ganharia?… Hum, interessante… Vamos lá comer esse gelado…»

Esta última é para mim a estratégia menos interessante, pois sem querer o que o adulto está a fazer é a colocar no consciente e sobretudo no inconsciente da criança que quando ela perde, quando sofre, desde que as pessoas à sua volta se apercebam do que se passou, ela vai ganhar algo e isso tem um efeito muito perverso. 

Num processo de coaching uma das coisas que exploro mais é perceber quais são os ganhos secundários que fazem com que a pessoa se auto-sabote e não atinja os seus objetivos. Aquilo quem em coaching chamamos de ‘ganhos secundários’ são por norma o maior entrave que levam a pessoa conscientemente a querer mudar algo e a pedir ajuda mas inconscientemente a se auto-sabotar. Isto acontece porque o inconsciente (que é responsável em cerca de 90% das decisões que tomamos) sabe que se resolver a questão vai perder esses ganhos e como todos nós fazemos mais para não perder do que para ganhar então queremos perder peso mas não nos tirem a torrada ou os cereais ao pequeno-almoço, queremos ter um corpo bonito mas neste fase da vida não temos três ou quatro horas por semana para praticar atividade física, aquela relação é tóxica mas preferirmos dar mais uma oportunidade à pessoa, etc. 

Este é um tema que irei explorar mais em futuros artigos mas neste gostava de de te sugerir uma leitura que mostra como o Franz Kafka ajudou uma criança a gerir emocionalmente a sua perda.

Conta a história que cerca de um ano antes de sua morte, aquele que foi considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX, Franz Kafka, viveu um encontro transformador quando passeava no parque de Steglitz, em Berlim.

Ao encontrar uma menina que chorava desalmadamente, perguntou-lhe qual a razão da sua tristeza e esta contou-lhe que havia perdido a sua boneca Brígida. 

Kafka ofereceu ajuda para encontrar a boneca mas como naquele dia não conseguem encontra-la, combina um encontro no parque com Elsi no dia seguinte. 

O escritor vai então à sua vizinha que tem uma filha e começa a conversar com ela para perceber como é ser uma menina e como é ter uma boneca.

Já em casa Kafka começa a escrever uma carta que inventara ser de Brígida para Elsi e no dia seguinte ele vai até o parque e a lê para a menina. Entre outras coisas Brígida diz na carta para Elsi não chorar por ela pois havia partido numa viagem para ver o mundo. Quando terminou de ler a menina estava mais alegre por saber que Brígida estava bem.

Após lhe entregar a carta e despedir-se, Kafka percebe que teria que fazer Brígida viajar para outros lugares. Então no dia seguinte Franz lê-lhe uma carta que Brígida lhe enviou de Paris onde conta ter ido à Torre Eiffel, ao museu do Louvre e a vários outros lugares da cidade luz.

Durante três semanas, Kafka entrega pontualmente à menina cartas que narravam as aventuras da boneca pelos quatro cantos do mundo.

Para tornar a coisa mais verídica, Franz ia a lojas de colecionadores comprar cartas para retirar os selos e colá-los nas cartas de Brígida. Tudo para que a menina que havia conquistado o seu coração superasse a sua grande perda.

Com o passar do tempo Kafka começa a ter dificuldades em lidar com a sua doença e percebe que a morte estará para breve. Decide então escrever a sua penúltima carta para Elsi, onde Brígida conta estar feliz na Tanzânia e que se tinha casado com Gustav, o namorado que conheceu naquele país.

Por fim, escreve a última carta para Elsi onde Brígida diz que Elsi deve viver a sua vida e ser feliz. Agradece-lhe por esta ter-lhe ensinado tudo o que sabe e manda-lhe uma linda boneca de porcelana de cabelos loiros chamada Dora.

Anos mais tarde Elsi encontra uma carta enfiada numa abertura escondida na boneca Dora onde entre outras coisas dizia o seguinte:

«Tudo que tu amas eventualmente perderás, mas no fim o amor retornará numa forma diferente.»

Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou Jordi Sierra a escrever este livro onde o escritor imagina como como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Franz Kafka.

Este é o livro te convido a ler para perceberes que um dos maiores génios da literatura do século XX em vez de dar conselhos, sugestões ou usar toda a sua sabedoria para consular a menina, optou antes tentar colocar-se no seu lugar e para isso decidiu num ato de profunda humildade entrevistar a filha da sua vizinha para assim perceber como é o mundo de uma criança e dessa forma tentar entrar nele para só depois, no meio de toda a fantasia e divertimento, usar toda a sua sabedoria para consular a criança e passar-lhe vários ensinamentos.

Acredito que ao leres este livro irás retirar muitos ensinamentos para a tua vida e para a tua parentalidade.  

Esta foi a minha contribuição de hoje para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei a responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

Gostou deste artigo? Então comente, partilhe e seja o primeiro a receber todos os artigos da comunidade Pais mais Ligados, inscreva-se com o seu nome e e-mail para receber todos os artigos e novidades da comunidade.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.