Será que normal significa correto?

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, sempre que estou em hotéis com o meu filho deixo-o escolher tudo o que ele quiser para o seu pequeno-almoço. As razões são várias, nomeadamente…

– Nós somos o resultado dos nossos hábitos, não das nossas excepções.

– A little party never killed nobody.

– Gosto de o ver feliz a explorar e a fazer escolhas divertidas relativamente a coisas diferentes e que habitualmente não tem acesso.

– Gosto que ele associe a minha presença a uma zona segura e sem grandes julgamentos onde ele possa fazer escolhas divertidas relativamente a coisas diferentes e que habitualmente não tem acesso.

Confesso que me diverte imenso ver o efeito que esta carga glicémica de pequeno-almoço reforçado de gente normal tem no estado do meu filho. É de morrer a rir vê-lo aos gritos e aos saltos a correr feito barata tonta a começar uma série de brincadeiras sem terminar nenhuma, tal é a quantidade de açúcar a correr no seu sangue.

Como apaixonado por nutrição que sou, no meio das gargalhadas que dou com ele e com a mãe dou por mim a pensar no seguinte:

– A quantidade enorme de vitaminas do complexo B que o seu corpo teve de usar (que por sinal não as ingeriu, pelo menos em quantidade suficiente) para tentar processar aquele açúcar todo e que seria muito mais interessante serem usadas para as suas actividades cerebrais.

– Se ele tivesse acesso todos os dias a este pequeno-almoço de gente normal, tendo em conta que ele estuda numa escola normal e como é normal nessas escolas, o normal é ele ser obrigado a estar fechado a manhã inteira sentado a ouvir uma professora.

O normal é que a professora queira dele atenção, disciplina, concentração e rápida aprendizagem pois o programa escolar é muito extenso, logo a sala de aula não é sítio para ‘perder tempo’ com brincadeiras com os colegas.

É normal que ao dar um pequeno-almoço normal a uma criança e depois fechá-la dentro de uma sala e esperar que ela fique concentrada a aprender, a coisa não corra como normalmente se esperaria que corresse.

É normal que, não tendo acesso a mais recursos, o professor ou professora opte por castigar a criança quando ela ‘se porta mal’.

O normal é que para além do açúcar a correr nas veias, se a criança também tiver um pingo de sangue ela irá revoltar-se.

É normal que tendo em conta aquilo que os professores actualmente podem fazer e sobretudo aquilo que não podem fazer para disciplinar os alunos, a situação comece a ficar ingerível.

É normal que numa situação ingerível os professores chamem os pais à escola para falar do comportamento dos filhos.

É normal que os pais se defendam e digam que a culpa é do professor que não está a fazer o seu trabalho correctamente, aliás é normal que tu saibas que eu não tenho a vida que gostaria de ter porque tive o azar de nascer num pais onde os políticos são corruptos, não ganho o que gostaria de ganhar porque o meu patrão é estúpido e não me dá o devido valor e o meu clube perde porque os dirigentes dos outros clubes são corruptos e compram os árbitros.

É normal que nestas condições uma estratégia interessante e que resulta muito bem será dizer «O seu filho está a perder o comboio e a continuar com este comportamento irá ter o seu futuro comprometido. Eu acho que deveriam levá-lo ao médico para que ele o possa ver e lhe dê algo que o ajude a ficar mais calmo e mais concentrado».

É normal que em Portugal as crianças consumam 5 milhões de psicofármacos por ano.

Normal não significa correto, normal não significa bom, normal não significa saudável, normal apenas significa… normal.

 

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Com amor,

António

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