O que fazer quando as crianças não querem partilhar? (Parte 2)

No artigo anterior [link] descrevi um episódio que me aconteceu há cerca de dois anos e que ao relatá-lo na minha página de coaching, gerou um enorme debate sobre o tema com uma série de comentários sobre a minha atitude perante tal situação.

Houve pessoas que acharam muito bem aquilo que fiz, houve outras que acharam muito mal, sendo que o mais interessante foi que praticamente todas defenderam a sua posição com muito fervor, o que me faz concluir que é um tema que mexe muito connosco enquanto pais e educadores.

Neste artigo irei aproveitar este episódio para explicar a minha posição sobre o tema das partilhas bem como a minha visão do que nós como pais podemos fazer para inspirar as nossas crianças a partilhar.

Por norma os temas que os pais defendem com mais vigor são aqueles que de alguma forma mexem mais com eles e o tema das partilhas, tal como o das regras é um dos que mexe mais e porquê? Simples, por causa das incongruências.

É muito comum ouvir um pai ou uma mãe dizerem este tipo de expressões:

«O meu filho tem se saber partilhar.»

«Na nossa família a partilha é um valor fundamental e o nosso filho tem de aprender a praticá-lo.»

«Vivemos numa sociedade demasiado egoísta porque somos muito tolerantes no que toca a fazer as crianças partilharem as suas coisas. Se os pais não ensinam os filhos a partilhar as suas coisas enquanto são novos, estão a criar futuros adultos egoístas.»

Nós adultos somos muito bons a pregar a moralidade da partilha às crianças e por norma não partilhamos as nossas coisas mais preciosas com os outros, seja o carro, a casa, o tablet, os nossos ‘brinquedos’, etc.

É essa incongruência que nos faz defender com tanto furor o conceito de partilha nas crianças. É como se de uma certa forma quanto mais eu fomentar ou impuser esse conceito/regra, mais eu me convenço que o valor da partilha está intrínseco em mim, apesar de pessoalmente não o praticar assim tanto.

Partilhar é como andar. Não se ensina, aprende-se. Parece a mesma coisa mas não é. O teu filho não começa a andar porque tu o obrigas, ou porque lhe ensinas, muito menos porque se ele não andar vais dar-lhe castigos.

Ele começa a andar porque quer, porque tu o inspiras pois aos olhos dele a tua vida é bem mais interessante que a dele e uma das razões tem a ver com o facto de tu conseguires andar para onde quiseres e ele não.

Então ele modela-te, tu dás-lhe apoio nas quedas e o resto acontece por si.

Na partilha o processo é o mesmo. São as tuas acções e o resultado das mesmas que irão inspirar o teu filho, não as tuas regras ou imposições.

Por norma a partilha acontece quando a pessoa está numa vibração de abundância e amor e o egoísmo acontece quando a pessoa está numa vibração de medo e escassez.

Às vezes a partilha não acontece simplesmente porque a pessoa não lhe apetece naquele momento e essa razão é igualmente válida.

Pegando no episódio relatado no artigo anterior [link], tal como os adultos as crianças às vezes querem partilhar, outras vezes não querem. Na vida nem sempre se consegue logo o que se quer, às vezes é preciso saber esperar, saber cativar e seduzir e isso, na altura, o outro menino não conseguiu fazer.

Na altura a maioria das pessoas julgou o facto da outra criança ter-lhe emprestado a pá e mesmo assim o meu filho não estava a querer emprestar-lhe o carrinho, dado que aparentemente não faz sentido não partilhar quando algo nos foi partilhado.

Isto leva-nos para uma questão muito interessante que é a partilha condicionada pelo ‘exterior’ em vez de ‘porque quero’. Quantas vezes nos sentimos manipulados a fazer ou partilhar algo porque as regras da sociedade nos ‘obrigam’ a isso?

Um pormenor interessante é que no dia seguinte ele conheceu outras crianças que estavam a fazer construções na areia e a primeira coisa que fez foi ir buscar a pá e o seu carrinho de mão para juntar ao ‘pacote de materiais de construção’ do grupo.

Agora provavelmente perguntam «Então porque é que não emprestou ao Santiago no dia anterior?»

As respostas podem ser várias como:

«Porque o Santiago não lhe inspirou confiança para brincar com o SEU carrinho de mão.»

«Porque ele sentiu-se manipulado e quis-lhe mostrar que não se deixa manipular com tanta facilidade.»

«Porque ele estava numa fase da construção onde o carrinho era fundamental.»

«Porque não gostou da forma como o Santiago lhe pediu o carrinho.»

«Simplesmente porque não quis.»

Para mim não faz muito sentido intervir armado em ‘árbitro de brincadeiras’ ensinar às crianças as regras da brincadeira, muito menos estar a impor as regras de uma brincadeira que não era minha.

Claro que as nossas decisões têm consequências, pelo que será fácil concluir que se o Rafael não emprestasse nada ao Santiago este provavelmente não iria emprestar mais nada ao Rafael e ele iria aprender com uma consequência natural sem eu ter de intervir com uma lição de moral.

Muitas vezes os pais agem pelo risco de eles próprios se sentirem julgados aos olhos dos outros (neste caso seria não querer que os outros pensem que não sei ensinar o meu filho a partilhar). Nessa situação, assim como em muitas outras, projectamos nos nossos filhos (ou situações) as nossas próprias inseguranças.

Quando obrigamos uma criança a partilhar algo que a criança não quer estamos, antes de qualquer outro valor que desejamos transmitir-lhe, a ensinar-lhe que os seus sentimentos não importam e que ela não tem o direito de ser ouvida e respeitada, logo não estamos a praticar igual valor.

Acredito que obrigar a criança a partilhar em qualquer contexto, só vai criar crianças ainda mais egoístas e possivelmente com baixa autoestima. De facto vivemos numa sociedade bastante egoísta e muitos dos egoístas que hoje são adultos, provavelmente em crianças foram obrigados a partilhar e foi-lhes ensinado que não podiam fazer o que queriam. Agora que têm o poder de tomar as suas próprias decisões são pessoas ressentidas, invejosas, frustradas e egoístas porque vêm outros fazerem o que querem quando eles nunca puderam fazê-lo e hoje muitas vezes mesmo podendo não conseguem porque não foram habituados assim.

Também não quero que o meu filho partilhe apenas porque fica bem ou porque se não o fizer o pai (no momento ou mais tarde) vai-lhe dar a ‘lição de moral’.

Existem dois tipos de partilhas, as que são feitas por interesse e as que são feitas de forma desinteressada. Ambas são muito interessantes e nos dão ganhos, sendo que estas últimas são as mais bonitas.

Eu tento passar ao meu filho que o mundo não tem de funcionar de forma linear e que quando temos um gesto para com alguém, podemos faze-lo sem a expectativa de que essa pessoa aja da mesma forma para connosco. Acredito que com o passar do tempo a vida nos retribuirá o gesto que tivemos, sem ser necessariamente naquele exacto momento, nem com aquela pessoa. Ensino-lhe, acima de tudo, que podemos continuar a ser autênticos independentemente da atitude do outro, pois isso para mim é sinónimo de real liberdade.

Acredito muito pouco na intervenção de adultos nestes casos pois as crianças aprendem muito nestas interações sozinhas. O Santiago com mais algum tempo se calhar poderia ter encontrado outra estratégia bem mais interessante e eficaz do que estar apenas aos gritos.

Se queres praticar uma parentalidade consciente o conceito de ‘igual valor’ é uma das bases e como tal é importante que percebas que um tablet para mim provavelmente tem tanto valor (ou até menos) que o carrinho de mão para uma criança.

Quanto à minha atitude perante os pais, não foi minha intenção dar lições de moral a ninguém, até porque se não acredito que este tipo lições de moral funcionem com as crianças, muito menos acredito que funcionem com adultos.

Este pai desde o início libertou várias pistas daquilo que chamo de Parentalidade Ditatorial – «Vamos lá ser amigos ou acaba-se já com a brincadeira». Como o meu filho não se mostrou minimamente afectado pela sua atitude, para mim o episódio teria ficado por ali e ele tinha aprendido que o facto de não ter emprestado o brinquedo teve como consequência o outro pai ter levado o filho e a sua pá, algo que o Rafael não pareceu dar muita importância pois continuou tranquilamente a escavar com as mãos.

A minha atitude teve como objectivo ajudar uma mãe que desde o início se mostrou sempre desconfortável com a forma como o seu filho estava a gerir (ou melhor a não saber gerir) a situação, pois como ele não estava a conseguir o que queria, os recursos que dispunha no momento só o levaram a gritar até que alguém (provavelmente o ditador do seu mundo) fosse resolver as coisas e colocá-las ‘na ordem’ pois «se eu sou obrigado a partilhar e partilhei, então este aqui não está a cumprir as regras e portanto está na hora de chamar alguém para por ordem nisto».

Essa mãe estava desconfortável e ficou ainda mais desconfortável quando o companheiro foi lá intervir, o que me levou a acreditar que ela não concorda lá muito com a abordagem do marido mas provavelmente não tem recursos para fazer de forma diferente. Ela percebeu o argumento e cabe-lhe a ela encontrar a melhor altura de fazer vê-lo ao seu companheiro. Se eu tivesses tido esta conversa com o marido provavelmente iria ser interpretado como um desafio e o mais provável seria dois pais a discutirem quando a minha intensão era apenas que as crianças se entendessem, tal como aconteceu uma vez que o carrinho de mão acabou por ser partilhado momentos mais tarde quando o meu filho assim o quis e os miúdos se entenderam entre si.

Esta foi a minha contribuição de hoje para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

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2 comentários no post “O que fazer quando as crianças não querem partilhar? (Parte 2)

  1. E no caso de duas irmãs? Em que os brinquedos são comuns, o espaço é comum… e que para além de gritarem também se batem. O que fazer nesta situação?


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