Será que o Leite Materno é assim tão importante, ou simplesmente voltou a estar na moda?

Desde quando o leite materno deixou de ser uma coisa boa e passou a ser a substituído por leites em pó processados?

Desde quando voltou a estar na moda de novo?

E será que é mesmo só mais uma moda que voltou ou será que as mulheres começaram a despertar para algo verdadeiramente relevante para a saúde do seu bebé e para a sua conexão mãe-filho?

Neste artigo quero fazer contigo uma reflexão sobre a importância da amamentação versus a utilização de leites de substituição.

Antigamente não havia Leites de Substituição e portanto a esmagadora dos bebés bebia leite materno. Depois apareceram os Leites de Substituição para resolver o problema das mães que deixavam de ter leite. Por norma é assim que começam os negócios, existe um problema, alguém encontra uma solução e forma de vendê-la e pronto, temos um negócio onde mediante uma troca de dinheiro as duas partes ficam satisfeitas, uma porque comprou a resolução do seu problema e a outra porque vendeu a resolução do mesmo ajudando assim o comprador.

Até aqui tudo bem, no entanto algures no tempo a indústria percebeu que ao vender Leite de Substituição apenas para as mães que deixavam de ter leite (ou nunca chegavam a ter) para dar de mamar aos seus filhos, estavam apenas a explorar uma cota de mercado relativamente baixa uma vez que por norma a maioria das mães tem leite para dar e vender (literalmente).

Assim, se fosse ‘democratizado’ o Leite de Substituição, o mercado do Leite de Substituição aumentaria de tal forma que quem inicialmente pensou em desenvolver este tipo de alimento jamais imaginaria.

Então através de uma genial estratégia de Marketing e de sensibilização da classe médica, passado alguns anos as mães começaram a ser informadas das vantagens dos Leites de Substituição e o Leite Materno passou a ser apenas o leite das crianças cujos pais não tinham condições financeiras para lhe dar Leite de Substituição.

De alguns anos para cá o Leite Materno voltou a ganhar adeptos na classe médica e esta voltou a recomendar o seu uso como prioritário. Obviamente que isto não agradou à indústria dos Leites de Substituição, o que a levou a um marketing mais agressivo aumentando assim ainda mais a crispação com a classe médica levando a Organização Mundial de Saúde a obrigar os comercializadores de Leites de Substituição a indicar nas suas comunicações que a OMS recomenda o aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses e foi também criado um Código Internacional de Marketing dos Substitutos do Leite Materno.

O Leite Materno voltou então a estar na moda, tão na moda que os papeis se inverteram e voltou a ser chique dar de mamar. Tão na moda que até existe um autêntico mercado negro do Leite Materno onde  idosos financeiramente abonados pagam valores elevados pelo colostro humano (leite que sai das fêmeas durante as 72 horas após terem parido) devido em grande parte à sua acção rejuvenescedora. No entanto a questão que me coloco é:

Até quando é que o Leite Materno irá estar na moda?

Antigamente quando a mãe deixava de ter leite as soluções eram normalmente as seguintes:

– Colocar o seu filho a mamar numa amiga sua que também estivesse a amamentar.

– Colocar o seu filho a mamar noutra mulher que também estivesse a amamentar e oferecesse ou vendesse esse bem/serviço.

– Colocar o seu filho a mamar numa escrava sua que também estivesse a amamentar.

– Colocar o seu filho a mamar numa escrava de alguém que também estivesse a amamentar e cujo dono oferecesse ou vendesse esse bem/serviço.

– Dar ao seu filho leite de égua ou de burra, uma vez que são os leites nutricionalmente mais semelhantes ao Leite Materno. É interessante observar como é que até há dezenas de anos atrás mesmo sem acesso a análises os humanos sabiam intuitivamente que o leite de égua ou de burra eram de longe uma solução nutricionalmente muito mais interessante para o bebé que o leite de vaca.

Apesar de nutricionalmente ser extremamente rico, o Leite Materno é pobre em vitamina D3 e pouco calórico, em parte devido ao facto do sistema digestivo do bebé ainda estar longe de estar completamente formado, sendo essa uma das razões da composição do Leite Materno ir-se alterando com o passar do tempo. Apesar dessas alterações, o Leite Materno é sempre um alimento rico em nutrientes, pobre em calorias, pobre em gordura (à excepção do ómega 3), pobre em proteína e muito rico em açúcar.

Se olharmos apenas para os rácios percentuais de macronutrientes podemos dizer que o Leite Materno é o alimento perfeito para engordar pessoas, afinal de contas não é por acaso que os bebés são gordinhos. Podemos até afirmar que um adulto que tenha a percentagem de gordura corporal média de um bebé saudável é considerado uma pessoa obesa.

Como a natureza funciona de forma perfeita ela desenhou o alimento perfeito para os bebés, tão perfeito que conforme disse anteriormente a sua composição vai-se alterando com o passar do tempo. Então mas se a natureza é assim tão perfeita, como é que um alimento baixo em vitamina D3, gordura e proteína e muito rico em açúcares, aparentemente desequilibrado (tão desequilibrado que se um adulto se alimentasse de Leite Materno tornar-se-ia num obeso) é considerado o melhor alimento do mundo para um bebé?

É simples, a resposta está na pergunta, o Leite Materno é o melhor alimento do mundo para um bebé e não para um adulto.

Apesar de sermos o animal com o cérebro mais devolvido à face da Terra, o ser humano quando nasce é dos animais (como primata é mesmo o animal) com o cérebro menos desenvolvido, pois ele nasce com apenas cerca de 25% do seu volume cerebral. Isto significa que aproximadamente 75% do cérebro é construído depois do bebé nascer. Tendo em consideração que os alimentos principais do cérebro são o sono, açúcar, magnésio e ómega 3, é natural que o bebé passe a maior parte do tempo a dormir e que o seu alimento seja muito rico nestes nutrientes.

Ora se um cérebro para funcionar bem precisa de açúcar (glucose), um cérebro em construção precisa de muito mais açúcar e o açúcar é perfeito para o desenvolvimento cerebral pois transforma-se em energia muito rapidamente, ideal para um cérebro que está em construção, logo a demanda por energia dum cérebro em construção é incomparavelmente superior e mais urgente que a de um cérebro dum adulto.

Pensa no seguinte, o cérebro dum adulto tem aproximadamente as mesmas necessidades energéticas que o sistema muscular esquelético (cerca de 20% do consumo calórico total), ou seja, um cérebro já formado consome em média aproximadamente tanto como todos os músculos esqueléticos do corpo, agora imagina a energia que não deve consumir um órgão que só por si já consome tanta energia, ainda para mais na fase em que apesar de já estar a funcionar, ao mesmo tempo ainda está a ser construído.

Aqui gostava de abrir um parêntese para uma chamada de atenção a dois tipos de pessoas:

I – O primeiro são alguns entusiastas do fitness e/ou das dietas que agora têm por hábito criticar as papas para bebés por serem demasiado açucaradas. – Atenção que papas ou produtos alimentares para bebés e cereais para crianças são duas coisas bem diferentes. As papas e outros produtos alimentares para bebés são desenhados por especialistas em nutrição infantil como refeições para bebés que tal como em tudo na vida a sua qualidade depende da marca. Como já pudeste perceber pela explicação acima, as crianças têm necessidades nutricionais muito diferentes dos adultos, ora são essas necessidades nutricionais que vão entroncar com o segundo grupo de pessoas que gostaria de fazer esta chamada de atenção.

II – O segundo grupo de pessoas são aquelas que têm por hábito jantar uma papa de bebé. Uns fazem-no por uma questão económica, outros pelo facto de ser prático, outros por acharem que o jantar deve ser uma refeição leve. Como estamos a falar de refeições que rondam as 250/300 Kcal faz-lhes sentido que uma papa para bebés seja uma boa opção para o jantar ou ceia.

É importante que tenhas em mente que se queres uma refeição económica, prática, leve e a rondar as 220/300 Kcal, então deves optar por um Substituto de Refeição para adultos  – Este é o que eu uso [ Link ] quando não tenho tempo para fazer o jantar, ou para a minha ceia dado que eu faço cinco a seis refeições por dia. – e não uma papa para bebés, pois quando jantas uma papa para bebés estás a ingerir os micronutrientes que uma criança necessita (necessidades bem diferentes das de um adulto), muito pouca proteína e muito açúcar o que significa que ou vais jogar xadrez logo a seguir ao jantar ou então vais praticar actividade física, caso contrário irás engordar uma vez que se esse açúcar não for utilizado rapidamente o teu corpo irá transformá-lo em gordura .   

Voltando novamente ao leite materno e às refeições dos bebés. Se o leite materno (tal como o leite de substituição) tem muito açúcar e o açúcar é uma energia que está rapidamente disponível mas que essa disponibilidade energética esgota-se rápido, então é natural que as refeições sejam por vontade do bebé (regra geral) curtas e muitas.

Tendo isto por base, ensinar/treinar/habituar o bebé às horas a que ele deve mamar (para maior conveniência dos pais) é contraproducente uma vez que tende a desligá-lo do seu instinto, fá-lo estar mais tempo sem comer (o que pode melindrar um desenvolvimento óptimo do seu cérebro) e força-o a comer mais do que deveria, situação para a qual os seus intestinos ainda não estão preparados nessa fase da sua vida. O ideal será que o bebé seja alimentado quando ele quer, o que regra geral ronda um espaço temporal aproximadamente de duas em duas horas.

Ora se as refeições devem ser curtas e muitas, então se o bebé dormir junto à mãe todo o processo torna-se muito mais prático – Podes e deves explorar mais este assunto lendo o artigo «Devem os filhos dormir com os pais?» [ Link ] – o que permite mais refeições, logo mais nutrientes a serem absorvidos pelo bebé, mais anticorpos que a mãe passa para o bebé, maior probabilidade da mulher produzir mais leite durante mais tempo o que pode resultar numa menor probabilidade da mãe vir a contrair cancro na mama. – Sobre este tema sugiro que procures o trabalho desenvolvido pela Professora Helen Ball da Universidade de Durham. [ Link ]

Para além do Leite Materno conter anticorpos provenientes do sistema imunológico da mãe, este alimento é muito rico em ácido láurico (cerca de 19%), o precursor da monolaurina, uma substância produzida no corpo e que é um poderoso antiviral, antibacteriano e anti-inflamatório o que faz com que bebés que amamentam tendam a ter menos doenças. 

Um facto muito interessante é que as mães que amamentam tendem a assumir automaticamente uma postura protetora, em C “cuddle curl” que impede que ela ou outros rolem para cima do bebé.

Convido-te a ler os outros dois artigos [ Link ][ Link ] sobre os benefícios do leite materno.

Esta foi a minha contribuição de hoje para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti e achares que possa ajudar alguém, por favor partilha.

Com amor,

António

Imagem: Bigstock

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4 comentários no post “Será que o Leite Materno é assim tão importante, ou simplesmente voltou a estar na moda?

  1. Bom dia António! Achei muito interessante o seu artigo! Do meu conhecimento o crescimento do uso do leite artificial está relacionado com a revolução industrial! Talvez pudesse ter também relacionado essa questão, em vez de apontar para o surgimento de um produto para fazer face as necessidades das mães que tem pouco ou nenhum leite conforme se faz querer, visto que fisiologicamente são poucas! Bem haja!