Faz sentido celebrar o Halloween? – Doces ou Travessuras? Travessuras claro!

Hoje as nossas escolas serão invadidas por bruxas, demónios, vampiros, esqueletos e outros seres das trevas. Quando iniciei esta trilogia de artigos – Artigo 1 [Link] | Artigo 2 [Link] | Artigo 3 [Link] – questionei qual é a intenção desta festa na nossa sociedade e fiz a analogia ao facto de até há bem poucos anos em Portugal se comer Cozido à Portuguesa com muita frequência e como hoje os Portugueses trocaram esse hábito pelos restaurantes de Fast Food.

Será que esta analogia faz algum sentido?

Será que esta importação poderá ter um efeito tão negativo nas nossas crianças como tem tido o da importação do Fast Food?

Para além das questões indicadas na Parte 1 deste artigo [Link], quero agora ir por um caminho diferente.

Se leste o artigo «Faz sentido celebrar o Halloween?» [Link] já sabes que “Trick or sweet” tem muito pouco a ver com «Doces ou travessuras» e muito mais a ver com «Ou nos dás pasteis e cerveja ou partimos isto tudo» e portanto esta brincadeira inocente tem por base uma tradição protestante onde um grupo de rufias que pertencia à religião da maioria ia perseguir, ameaçar e extorquir comida e bebida a uma minoria religiosa e claro que pelo meio aproveitavam para partir umas coisinhas só pelo gozo e para mostrar quem é que mandava ali.

Este conceito de ou fazes o que eu quero ou tens um castigo, para mim é o menos interessante pois tem por base duas entidades onde a que está em vantagem impõe a sua vontade sob ameaça à entidade que está desvantagem, sendo que essa vantagem ou desvantagem pode ser em capacidade numérica, força, vergonha, etc.

Talvez estejas a achar que esteja a exagerar pois isto é apenas uma brincadeira e sabes porque é que pensas isso?

Porque apesar de sentires amor incondicional pelo teu filho, o mais provável é que pratiques amor condicional na maior parte do tempo.

Achas este conceito estranho? Então fica comigo que vou explicar-te melhor.

Queres ter um filho que te obedeça ou um filho que colabore contigo?

Claro que o mais provável será que a tua resposta seja «um filho que colabore comigo», afinal de contas até nas empresas já quase ninguém que ocupe um cargo de topo diz os «meus empregados/funcionários» e sim «os meus colaboradores», sendo que na maioria dos casos o conceito ‘colaboradores’ não passa de uma fachada pois essas mesmas pessoas actuam da seguinte forma «Ou os meus colaboradores fazem o que eu peço ou irão ter represálias», ou então jogam uma cenoura para os colaboradores correrem atrás e «ou correm atrás ou irão ter represálias».

Fazendo aqui um paralelismo com a parentalidade, se não praticares Parentalidade Consciente o mais provável é que tu (que estás em vantagem) tenhas instituído uma série de regras em casa, regas essas que se o teu filho não as cumprir irá obviamente ter castigos.

Até podes ser daquelas pessoas que é contra bater em crianças, ou achas que de vez em quando uma ‘palmada na hora certa’ até faz sentido, ou que uma ‘palmadinha sacode o pó’ não tem mal nenhum, mas na prática o que estás a comunicar é, tal como o teu filho na brincadeira do «doces ou travessuras», ou fazes o que eu quero ou vai haver merda.

Tal como nas brincadeiras de Halloween, há depois variantes mais ou menos musculadas, do género:

– Ou fazes isto ou levas uma palmada!

– Ou fazes isto ou não vês televisão!

– Se não te ‘portas bem’ não o Pai Natal não te dá presentes.

– Se não te ‘portas bem’ recebes uma bolinha vermelha.

– Etc., etc.

Entretanto com tanto “Se não te portas bem”, surgiu-me a questão, mas afinal o que é isso do ‘portar bem’? ‘Portar bem’ segundo o conceito de quem, segundo que regras? O que é ‘bem’ em termos de comportamento? A criança está devidamente informada sobre este conceito e sabe exactamente o que é ‘portar-se bem’ e ‘portar-se mal’? Bom, bom, mas este artigo ainda é sobre o Halloween e já deves ter percebido que este assunto do ‘portar bem’ dá pano para mangas, por isso, falaremos disso em um outro artigo…

Voltando ao amor condicional, também podes praticar amor condicional fazendo o inverso, ou seja, através do reforço positivo com recompensas mas isso fica para um próximo artigo…

E assim as crianças regurgitam o comportamento que aprendem com os adultos…

– Se não me compras isto faço um escândalo aqui a agora neste supermercado.

– Se não me deixas fazer isto vou fazer uma birra.

– Se não me deixas jogar não te vou deixar conversar com estes teus amigos até que me deixes jogar ou fazer aquilo que quero.

– Ou me dás doces ou levas com uma travessura…

Começas a ver onde quero chegar? Ou me dás o que quero ou porto-me mal, porque agora sou eu que tem o poder.

E nestas situações o que é que tu fazes?

– Ou páras com isso ou levas uma palmada ou um castigo.

E este loop (em Portugal chamamos de pescadinha de rabo na boca) de jogos de poder e que não é mais do que amor sujeito a uma condição, ou seja amor condicional, irá perdurar durante a tua relação com o teu filho.

Tal como disse anteriormente podes sempre ir pelo reforço positivo, sendo que irá gerar na mesma um loop do género «Se queres que eu faça isso, qual é a recompensa que tens para me oferecer?»

Uma das fases que me ficou para sempre duma formação que fiz com o Marcelo Ortega [Link] foi a seguinte: «Se você está a construir a sua equipe de vendas somente com base nas recompensas você está criando um bando de putinhas», mas conforme disse anteriormente a questão do reforço positivo fica para outro, ou outros artigos…

A Parentalidade Consciente tem como um dos seus pilares principais o Igual Valor pelo que o conceito ou fazes isto ou sofres aquilo, simplesmente não é aplicável.

Então deveríamos manter-nos agarrados às nossas antigas tradições?

Eu sou pouco conservador e pouco agarrado a tradições pelo que a minha questão nunca foi essa, até porque o conceito de bandos de crianças a andarem pela noite a aterrorizar os adultos até acho bastante divertido e com uma série de mais valias, nomeadamente:

– O gosto pelo desconhecido

– A actividade física – subir escadas é um excelente exercício e fugir ainda melhor!

– O espírito de grupo

– O espírito de liderança

– O espírito de cooperação

– A criatividade

– A empatia

– A auto-estima

É sobre estes últimos dois que gostaria de aprofundar um pouco.

Que tal se simplesmente criarmos uma noite onde os miúdos saem à rua para fazerem travessuras e assustar os adultos retirarmos da brincadeira a parte da extorsão dissimulada e assim tornamos a coisa muito mais saudável e divertida.

Ora conforme já referi para a coisa ser divertida tem de ser divertida para as duas partes e é aí que podemos usar esta nova ‘tradição’ como uma excelente ferramenta para as crianças treinarem a sua capacidade de empatia.

Se eu fosse aquele adulto iria achar graça a esta travessura que o grupo está a propor fazer?

Ia ficar só um bocadinho zangado mas no fundo até achava graça?

Ia ficar mesmo muito zangado?

Ia assustar-se muito?

Não será que esta travessura em particular deva ser praticada apenas em adultos até uma certa idade? Afinal de contas não queremos matar ninguém de ataque cardíaco, pois não?

E assim por diante, sendo que estas discussões são uma excelente forma de criar nas crianças espírito de grupo, códigos de honra e conduta (que é bem mais interessante serem criados e explorados por eles ao invés de serem impostos pelos pais) e uma excelente forma de validar e reflectir sobre a sua autoestima.

Uma criança com uma autoestima pouco saudável mesmo que não concorde nada com a com a travessura, se o líder do grupo a decidir fazer ela irá fazê-la apesar de não concordar, pois mais importante que os seus valores e ideais está a necessidade de validação e pertença ao grupo, coisa que poderá ser colocada em causa se não acatar a decisão deste. Se tiver uma auto-estima muito pouco saudável ela nem irá expressar a sua não concordância pelo que está a ser decidido, simplesmente segue o rebanho.

Uma criança com uma auto-estima saudável ao não concordar com algo tende a debater ou até mesmo tentar impor os seus valores sem grande receio do que possam pensar sobre ela, pois como tem uma elevada autoestima opiniões negativas sobre ela afetam-lhe pouco, pelo que não a impedem de fazer e lutar pelo que acha correcto.

Assim uma noite de travessuras bem preparada em casa poderá tornar-se num excelente exercício de autoestima.

Por esta lógica já deves estar a adivinhar que se queres uma criança que ‘se porte bem’ deves trabalhar muito a sua autoestima e garanto-te que não é com castigos que vais lá.

Crianças educadas com castigos tendem a agir com base a evitar castigos, sejam eles dos pais ou do grupo e no momento só está lá o grupo para castigar, os pais só castigam se souberem.

Tu já tiveste a idade do teu filho, portanto pensa nisto.

Eu cá não terei doces nenhuns para oferecer nesta noite a quem me ameaçar com travessuras, portanto venham elas e as crianças que se preparem porque eu vou dar luta!

🙂

Para finalizar esta trilogia de artigos sobre o Halloween, afinal faz ou não sentido celebrar o Halloween?

Vamos ser realistas. A festa está instalada, as crianças adoram a ideia do Halloween (mesmo que não entendam do que se trata, se tem festa, mascaras e doces, para eles já tem todos os ingredientes para ser uma coisa divertida), a indústria dos doces e dos artigos de festas já nos manipulou para aderir a mais um consumismo aliciando os nossos filhos e queiramos ou não já não dá para fugir e fingir que não se passa nada, até porque os nossos filhos não deixam passar nada despercebido e já não falam noutra coisa há dias ou mesmo semanas.

Claro que podes sempre ir contra a corrente, criar mais uma guerra de poder com o teu filho e mostrar quem é que manda (impondo a tua vontade através do teu amor condicional), mesmo quando ele vê todos os amigos a festejar algo que ele não pode festejar e não entende muito bem porquê.

Mas será mesmo necessário tudo isto? Se leste os três artigos (se ainda não leste, podes ler aqui o primeiro [Link] e aqui o segundo [Link]), sabes que existem muitos factores negativos relacionados com o Halloween e se só pensarmos nisso então não festejaríamos, mas tal como viste neste artigo também podemos encontrar alguns factores positivos no meio desta festa que nada tem a ver com a nossa cultura mas da qual os nossos filhos gostam tanto.

Então aquilo que eu escolhi fazer e que te deixo agora como uma sugestão é que aproveites o Halloween de forma positiva, para te ligares mais ao teu filho, o educares sobre tradições e contar-lhe histórias (mais sobre as histórias de Halloween para ensinares ao teu filho no primeiro artigo [Link]), o deixes brincar e comer alguns doces nesse dia porque é uma festa (como no natal ou nos aniversários) e por isso é um dia excepção em que se pode comer coisas que nos outros dias não comemos porque doces devem ser uma excepção e não uma regra (mais sobre os doces e o Halloween para ensinares ao teu filho no segundo artigo [Link]).

Prepara com ele brincadeiras divertidas enquanto o ensinas sobre segurança e sobre o que deve fazer e o que não é bom fazer para depois partilhar com os amigos e se divertirem na noite de Halloween pregando muitas travessuras divertidas e sem maldade ao vizinhos. Até porque mesmo as brincadeiras de travessuras só têm piada se todos os intervenientes acharem graça.

Aproveita assim o Halloween para fomentar o senso de cooperação, de liderança, de espírito de grupo, de empatia e sobretudo a autoestima do teu filho.

Desejo-te um Halloween com mais significado, aprendizagem, diversão e muita conexão com o teu filho e já agora, porque hoje é Halloween… Algumas travessuras muito divertidas e até mesmo alguns doces porque hoje é Halloween e é a excepção e não hábito. 😉

Esta foi a minha contribuição para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

PS: Este terceiro artigo contou com a preciosa ajuda da Jordana Cardoso, Psicóloga Clínica, Assistente de Investigação no ISPA-IU e Facilitadora de Parentalidade Consciente. Poderás seguir o seu trabalho aqui: [Link]

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2 comentários no post “Faz sentido celebrar o Halloween? – Doces ou Travessuras? Travessuras claro!