Devem os filhos dormir com os pais? (Parte 1)

AVISO: Este artigo tem por base a experiência pessoal do autor e a compilação de várias opiniões e estudos sobre o tema. A decisão e responsabilidade de praticar Co-Sleeping cabe em primeira e última instância aos pais. Em momento algum este artigo recomenda que pratique Co-Sleeping sem antes procurar o máximo de informação sobre o tema para poder tomar uma decisão informada em consciência.

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Esta é uma das questões que está mais em voga actualmente. Se és pai ou mãe acredito que já tenhas pensado sobre se é mesmo melhor para o teu filho dormir no seu próprio quarto ou se deve dormir contigo, sobretudo naquelas noites em que a criança não dorme (e tu também não) porque não quer ficar sozinha. Existem várias teorias a defender os benefícios do co-sleeping e outras a alegar o facto dos filhos dormirem com os pais pode trazer uma série de problemas a curto, médio e longo prazo.

Mas quando é que esta discussão começou? Basicamente quando começou a haver mais dinheiro para existirem mais quartos na casa.

Antigamente esta questão não se colocava e ainda hoje em sociedades de poder económico mais baixo todos dormem no mesmo quarto.

Na maioria dos países não-ocidentais bebés e crianças pequenas dormem com os seus pais seja na mesma cama ou simplesmente no mesmo quarto, no entanto em Portugal, no Brasil e na maioria dos países do mundo isso também acontecia e ainda acontece em famílias com pouco poder económico. Parece-me simples perceber a lógica, se só há condições para haver um quarto dormem todos no mesmo quarto, se houver melhores condições então é mais simpático que cada um tenha o seu próprio quarto.

Nestes artigos – Parte 1 e Parte 2 [ Link ] – irei abordar os argumentos mais conhecidos a favor do Co-sleeping mais conhecidos e num próximo falarei sobre os argumentos contra esta prática.

Em primeiro lugar é importante clarificar conceitos, pois ao contrário do que se lê e ouve muito por aí Cama Compartilhada não é o mesmo que Co-sleeping.

Cama Compartilhada, tal como o próprio nome indica, é quando a criança dorme na mesma cama que a mãe ou cuidador.

Co-sleeping é quando a criança dorme na mesma divisão da casa que a sua mãe ou cuidador. Tendo por base esta lógica facilmente percebes que Cama Compartilhada e Co-sleeping não são a mesma coisa, sendo que Cama Compartilhada é uma forma de Co-sleeping.

Quando um bebé ainda está a ser amamentado ou alimentado a biberon é mais prático para a mãe que ele durma no seu quarto para dar de mamar ou dar o biberon.

Quanto a esta questão não me parece que haja grande necessidade de argumentar, é simplesmente muito mais prático.

Apesar de nutricionalmente ser muito rico o leite materno é pouco calórico, em parte devido ao facto do sistema digestivo do bebé ainda estar longe de estar completamente formado, sendo essa uma das razões da composição do leite materno ir-se alterando com o passar do tempo. Apesar dessas alterações o leite materno é sempre um alimento rico em nutrientes, pobre em calorias, pobre em gordura (à excepção do ómega 3), pobre em proteína e muito rico em açúcar. – Podes explorar este tema lendo o seguinte artigo: [ Link ]

Durante os primeiros meses de vida, enquanto o bebé ainda se alimenta apenas de leite, as refeições devem ser curtas e muitas, justamente porque o leite é sobretudo rico em açúcar que é uma energia rápida mas que se esgota muito depressa também, pelo que é normal o bebé sentir fome nas primeiras duas a três horas após a ultima refeição.

Tendo isso por base, ensinar/treinar/habituar o bebé as horas a que ele deve mamar (para maior conveniência dos pais) é contraproducente uma vez que tende a desligá-lo do seu instinto, fá-lo estar mais tempo sem comer, o que pode melindrar um desenvolvimento óptimo do seu cérebro e forçá-lo a comer mais do que deveria, situação para a qual os seus intestinos ainda não estão preparados nessa fase da sua vida. O ideal será que o bebé seja alimentado quando ele quer, o que em regra geral ronda um espaço temporal aproximadamente de duas em duas horas.

Ora se as refeições devem ser curtas e muitas, então se o bebé dormir junto à mãe e na mesma cama, todo o processo torna-se muito mais prático o que permite mais refeições, logo mais nutrientes a serem absorvidos pelo bebé, mais anticorpos que a mãe passa para o bebé, maior probabilidade da mulher produzir mais leite durante mais tempo o que pode resultar numa menor probabilidade da mãe vir a contrair cancro na mama e muito maior conexão entre mãe e bebé. Para aprofundar este tema dos benefícios da amamentação lê também o artigo «Será que o Leite Materno é assim tão importante, ou simplesmente voltou a estar na moda?» [ Link ] e se tens interesse por pesquisas nesta área, sugiro que vejas também o trabalho da Professora Helen Ball da Universidade de Durham. [ Link ]

 É mais rápido atender quando acordam.

Se a criança está mesmo ali é muito mais rápido atendê-la do que levantar e ir ao outro quarto ver o que se passa. Quando o meu filho dormia na nossa cama e acordava a chorar eu simplesmente dava-lhe uns beijinhos, aninhava-me mais a ele, sussurrava no seu ouvido e muitas das vezes isso era suficiente para ele voltar a dormir. Noutras tínhamos mesmo de fazer algo mais, mas era muito mais fácil estando ele logo ali connosco.

 Os adultos ficam mais descansados quando têm o filho perto.

Parece-me lógico que os pais se sintam e durmam mais descansados sabendo que têm a cria logo ali do que se a criança estiver noutro quarto longe deles.

Para além da lógica existe toda uma questão biológica uma vez que existem estudos que demonstram que dormir com o bebé e amamentá-lo durante a noite aumenta em muito a comunicação entre mãe e filho mesmo durante o sono dando uma maior sensação de proteção ao bebé e uma maior serenidade à mãe. Se te interessas por este tema, sugiro o trabalho do Professor James J. McKenna [ Link ], uma das maiores autoridades mundiais em Co-sleeping e Síndrome da Morte Súbita Infantil. 

Há que ressalvar que para o Professor James J. McKenna o Co-sleeping é o método mais indicado para bebés que são alimentados a biberão, ficando estes bebés numa cama ou berço ao lado da cama da mãe mas não na mesma cama. O Professor McKenna aconselha sim a Cama Compartilhada para crianças alimentadas em regime de amamentação.

Nós praticámos Cama Compartilhada, sendo que o nosso filho mamou até aos 18 meses. 

É mais natural.

Todos os mamíferos dormem aninhados aos seus progenitores e a esmagadora maioria das aves também. Por norma estes animais não constroem uma toca ou um ninho para eles e outro para as crias com o objectivo delas ganharem autonomia e se desenvolverem mais rapidamente. Até mesmo os cucos dormem aninhados às suas crias adoptivas. Aparentemente para a natureza o calor materno ou paterno e a sensação de segurança são factores importantes no desenvolvimento do animal. Tendo em consideração que somos animais parece-me razoável afirmar que os pais que têm o hábito de colocar os seus filhos a dormir na sua cama estão simplesmente a fazer aquilo que qualquer animal faz e arrisco ainda dizer que a criar crianças mais confiantes e autónomas mais cedo, pois a confiança e a autonomia partem do amor e da segurança, não do medo e da solidão.

Continua a ler sobre se devem ou não as crianças dormir com os pais no próximo artigo. [ Link ]

 

Esta foi a minha contribuição de hoje para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

PS: Agradeço à Suzani e Filipe do blog www.pipipum.com pela cedência da imagem. Eles têm um blog cheio de ilustrações deliciosas sobre a sua aventura de pais de primeira viagem. Eu sou

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6 comentários no post “Devem os filhos dormir com os pais? (Parte 1)

  1. Sou educadora de infância, mas também sou mãe e não sou falsa moralista. Não uso do ditado “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Na verdade e o que digo aos pais, com base no conhecimento científico, experiência e amor de mãe, o facto da criança mudar de quarto e em que idade devemos fazê-lo é uma decisão de cada família.
    Cada família tem uma estrutura, tem uma rotina própria e só ela sabe o que será melhor para ela e para o seu bebé. Reforço ainda que, nem todas as mães/ pais têm a mesma capacidade de voltar a dormir caso se levante a meio da noite, estes aspetos devem ser levados em consideração, porque voltar a uma rotina normal com um bebé, é importante que as mães (cuidadores) descansem. Se tivermos cuidadores esgotados também não serão bons cuidadores.
    O alerta que costumo dar é mais tarde não cederem a chantagens, se as crianças perceberem que não podem expulsar nem o pai, nem a mãe, porque quem está a invadir o espaço é ela, e se ela está ali é porque o pai/mãe permitem, desta forma não surgirá conflitos internos.
    Posso dizer que os meus filhos sempre gostaram e gostam do miminho e do aconchego da minha cama, mas quando dormem vão para as deles. Não gosto de os acordar, mas é assim que eles querem e sempre tiveram noites tranquilas, sem chichi na cama, terrores noturnos ou outros. E ele tem 17 anos e ela 11.
    Na minha opinião devemos ter todos muito bom senso, nas decisões usar uma boa dose de amor, mas sem esquecer a disciplina!