Devem as crianças dormir com os pais? (Parte 2)

AVISO: Este artigo tem por base a experiência pessoal do autor e a compilação de várias opiniões e estudos sobre o tema. A decisão e responsabilidade de praticar Co-Sleeping cabe em primeira e última instância aos pais. Em momento algum este artigo recomenda que pratique Co-Sleeping sem antes procurar o máximo de informação sobre o tema para poder tomar uma decisão informada em consciência.

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Na primeira parte deste artigo [Link], expliquei a diferença entre Co-sleeping e Cama Compartilhada (que muita gente acha que é o mesmo mas não é) e abordei alguns dos melhores argumentos a favor do Co-sleeping, como:

– Quando um bebé ainda está a ser amamentado ou alimentado a biberão é mais prático para a mãe que o bebé durma no seu quarto.

– É mais rápido atender quando acordam.

– Os adultos ficam mais descansados quando têm o filho perto.

– É mais natural.

Neste artigo abordo mais alguns motivos para a prática do Co-sleeping e num artigo próximo falarei sobre os argumentos mais comuns contra esta prática.

Por agora ficamos com mais alguns bons argumentos para a utilização desta prática:

É bom e sabe bem!

Claro que gostos são discutíveis e só deves praticar Cama Compartilhada se gostares – lê sobre a diferença entre Co-sleeping e Cama Compartilhada na primeira parte deste artigo [ Link ] – pois a ideia é desfrutares ao máximo todas as fases da parentalidade, logo se não gostas que o teu filho durma na tua cama então não faz muito sentido praticares Cama Compartilhada. Eu pessoalmente adorei dormir com o meu filho, era (e ainda sou) viciado no cheiro dele e adorava adormecer agarrado a ele a fazer-lhe Reiki ou simplesmente a embriagar-me com o seu cheiro.

A ciência já consegue explicar uma série de questões hormonais e de sensação de compensação que fazem com que nos saiba tão bem dormir aninhados ao nosso filho, algumas delas explicarei mais a diante mas posso adiantar-te que a lógica é semelhante ao facto de por uma questão de sobrevivência o teu corpo dá-te uma série de sensações de compensação e felicidade quando comes açúcares ou gordura dado que eram nutrientes difíceis de obter nos primórdios da humanidade mas fundamentais para termos energia para lutar, perseguir, fugir e gerir a nossa temperatura corporal, algo bastante útil numa altura em que a roupa não abundava e vivíamos no limbo entre caçar e não ser caçados.

Pela mesma lógica, o nosso corpo presenteia-nos com sensações agradáveis de compensação e felicidade quando dormimos aninhados aos nossos filhos, pois progenitores aninhados aos seus filhos resultam em crias com temperaturas mais controladas e mais seguras de predadores. Crias mais seguras têm uma maior probabilidade de sobreviver e ultrapassar com sucesso a fase de maior risco de vida dado que é quando são jovens que têm menos capacidade de fugir e/ou defenderem-se de predadores e são muito mais sensíveis às noites frias. Crias que conseguem chegar à idade adulta resultam numa maior probabilidade de propagação da espécie, uma das necessidades básicas de qualquer ser vivo.

Bem sei que actualmente já não vivemos na selva e não corremos propriamente o risco de sermos caçados durante a noite mas os motivos continuam a prevalecer, pois uma criança que dorme aninhada aos seus pais sente-se mais segura e uma criança que se sente segura tem também um maior potencial de desenvolvimento da sua autoestima e confiança uma vez que, tal como mencionei na primeira parte deste artigo [ Link ] a confiança e a autonomia partem do amor e da segurança, não do medo e da solidão.

Pode prevenir a morte súbita.

Existem estudos que dizem que há menos casos de morte súbita em bebés que dormem no quarto dos pais. As causas da morte súbita nos bebés é algo que ainda não se conhece muito bem mas as investigações apontam para uma redução do número de casos onde acontece a prática de Co-sleeping. Pode apenas ter a ver com o fato de ser mais fácil para a mãe ou pai perceberem que o bebé se engasgou ou está com alguma dificuldade respiratória e actuarem rapidamente, pois em muitos casos de morte subida não se chega a saber o porquê do bebé ter morrido e há sempre a possibilidade de ter sido porque se engasgou ou por um problema respiratório. Há também outras teorias que defendem que a proximidade da cria com a progenitora previne de facto a morte súbita uma vez que existem vários estudos epidemiológicos que indicam que o Co-sleeping pode diminuir a morte durante a noite até 50% [ Link ], sendo que esta questão não é consensual na comunidade cientifica.

É interessante observar que enquanto nos países ricos, ou melhor nas classes mais abastadas dos países do ocidente se discute se devemos ou não praticar o Co-sleeping, no Japão essa discussão nem sequer existe uma vez que essa prática é uma questão cultural. Coincidência ou não, o Japão é o país com a taxa de Síndrome da Morte Súbita Infantil mais baixa do mundo.  

O bebé tem um sono mais descansado e reparador.

Existem estudos sobre o sono dos bebés que demonstram que o ideal é dormirem muito próximos do corpo materno ou de um adulto substituto pois as fases do sono REM deles são muito rápidas. Assim, eles acordam várias vezes e voltam a dormir rapidamente sem chorar pois encontram o aconchego de um ser humano, cheiro familiar, batimentos cardíacos, sons da respiração, contato físico, etc.

Dá-lhes uma sensação única de pertença e segurança.

Bebés que dormem sozinhos podem enfrentar sentimentos de medo ou de solidão e chorar muito por falta de contacto. Isto atrapalha um sono reparador já que pelo susto ao despertar ficam mais tempo acordados, o que pode melindrar um desenvolvimento óptimo do seu cérebro, como expliquei no artigo anterior [ Link ]. A sensação de protecção, de poder contar com ajuda imediata durante a noite dá-lhes segurança e autonomia para a fase de crescimento seguinte.

Os bebés necessitam de proximidade física. 

Bebés que passam o dia inteiro longe das suas mães necessitam ainda mais desse contacto. Existem teorias e estudos que defendem que os bebés vivem nos três primeiros anos de vida um processo de diferenciação da mãe pelo que o peito, o colo, o livre acesso ao corpo materno são factores fundamentais para a base sólida para os processos de autonomia e independência. Caso queiras pesquisar mais sobre este tema sugiro que veja o trabalho do Sueco Nils Bergman, professor na Universidade da Cidade do Cabo [ Link ].

Obrigar os bebés a dormirem sozinhos ficando a chorar sem parar até que durmam por esgotamento é um factor a mais de stress familiar que tende a desencadear comportamentos violentos nos adultos e não o contrário. Atender amorosa e carinhosamente às necessidades dos bebés que ainda não têm capacidade cerebral para compreender que estão separados da mãe parece-me ser uma mais atitude mais sensata da parte dos adultos.

Aumenta a produção de ocitocina.

Existem estudos que alegam que os hipotálamos dos pais que dormem com os filhos produzem mais ocitocina e esta hormona promove uma sensação de bem-estar, o reflexo da descida do leite mais rápido nas mães que amamentam e pensamentos amorosos de empatia e apego na dupla parental e bem como para o bebé.

Ora parece-me a mim que um bebé que se sente mais amado pelos pais poderá dormir melhor que um que está stressado porque sente que perdeu a sua única referência, a mãe e/ou os pais e por consequência o sono dos pais que dormem com o seu bebé também pode ser muito mais descansado pois o facto de se sentir mais amado e em segurança faz com que o bebé não acorde tantas vezes, logo também não chora tantas vezes como um bebé que dorma sozinho no seu quarto quando ainda não está pronto para se separar da mãe.

 

Esta foi a minha contribuição de hoje para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

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