Achas que o teu filho acredita no Pai Natal?

Achas que o teu filho acredita no Pai Natal? Um dos exercícios que me ajuda a tornar-me um Pai Mais Ligado é colocar-me nos sapatos do meu filho e tentar perceber o grau de conexão que uma situação, atitude, prática de parentalidade, ou ritual familiar me daria com o adulto em questão.

É muito comum a maioria dos adultos tratar as crianças como se fossem uns autênticos imbecis. Não concordas ou achas que estou a exagerar? Pois, então como te sentirias de alguém te fizesse uma pergunta e antes de sequer teres tempo de respirar outra pessoa já a respondeu por ti? E como te sentirias se alguém estiver a falar de ti à tua frente como se tu nem estivesses presente ou fosses invisível?

A maioria dos pais adoram falar sobre como seus filhos são maravilhosos, do que gostam ou não gostam e nem se inibem de o fazer à sua frente ou até responder por eles. E se isso não é trata-los como uns autênticos imbecis, não sei o que é… Acredito que só queres o melhor para o teu filho e que até pensas que se fazes isto, o fazes com ‘a melhor das intenções’, mas provavelmente nem formaste uma intenção consciente antes de agir.

Desculpa se por acaso te ofendi, a minha intenção não é julgar-te e muito menos ofender, a minha intenção é despertar a consciência dos pais para que pensem antes de agir e verifiquem se as suas intenções são conscientes e sobretudo se as suas acções os irão ligar mais aos seus filhos ou pelo contrário, criar uma barreira entre os dois.

Fazê-los acreditar no Pai Natal é apenas mais um clássico. Os pais e familiares contam a mesma história que lhes foi contada a si quando eram crianças e os fez acreditar no Pai Natal, como se já se tivessem esquecido de como se sentiram quando descobriram que o Pai Natal afinal era uma farsa, que as pessoas em quem mais confiam afinal lhes mentem.

Mas vamos lá então tentar colocarmo-nos no lugar duma criança para ver o sentido que o Pai Natal faz nos dias de hoje.

Em primeiro lugar os adultos explicam-lhe que o Natal existe porque é a data que nasceu o Menino Jesus que veio ao mundo para nos salvar e por isso três Reis Magos lançaram-se numa viagem seguindo uma estrela que os levaria onde esse menino estaria para lhe prestar tributo e oferecer-lhe presentes. Ok, até aqui compro a ideia, se bem que a tradição espanhola, bem como de outros países europeus, faz mais sentido, uma vez que se a ideia é simular o que supostamente aconteceu há mais de 2.000 anos, então os presentes deveriam ser dados no dia 6 de Janeiro, dia em que os Reis Magos ofereceram os presentes ao Menino Jesus.

Depois sem se perceber muito bem, no meio da história do Menino Jesus cai de para-quedas um velhote gordinho e simpático, de longas barbas brancas que vive na Lapónia e tem uma tropa de duendes a trabalharem para ele o ano inteiro a fazerem-lhe presentes para que ele durante uma única noite passe por todas as casas do mundo no seu trenó, desça a chaminé (que grande parte das casas hoje em dia não tem) e deixe os presentes que as crianças pediram na carta que lhe escreveram.

– Ok, esse velhote parece-me ser um tipo fixe e com alguns superpoderes, se bem que até agora quem tem superpoderes são os duendes e as renas, mas tudo bem, deixa lá ouvir o resto da história…

– Mas… – Já sabia, tinha de haver um «mas»… – ele só irá deixar os presentes se tu te tiveres portado bem durante o ano inteiro, pois ele vê tudo e sabe tudo.

Eh lecas! Isto é um bocado assustador… É uma espécie de 1984 do George Orwell em versão infantil.

– Mas não há problema porque tu foste um bom menino e portaste-te bem durante o ano inteiro não foi?…

O instinto de sobrevivência e a prudência dizem-me que nesta altura o melhor é dizer que sim, se bem que como sei que não foi bem assim, começo a achar que posso vir a ter alguns problemas com esse velhote das barbas brancas. É aqui que a minha cabeça começa a ser inundada por uma série de perguntas.

– O que é ser um bom menino? O que é portar-me bem? É fazer tudo aquilo que me mandam? Mesmo quando isso é extremamente desconfortável para mim?

– Espera aí, vamos lá a ver se vale a pena eu chatear-me muito como isto. Isto é a sério ou é uma brincadeira, tipo Homem Aranha, Invizimals, etc? Eu levo estes super-heróis muito a sério, discuto com os meus amigos sobre quem é o mais forte e poderoso, mas no fundo eu sei perfeitamente que isto é de faz de conta. E o Pai Natal?

– O Pai Natal é verdade filho, acredita! Ele vem de trenó na noite de Natal e desce pela chaminé para te deixar o presente no sapatinho/meia/árvore de Natal.

– Como é que ele tem tempo para ir às casas todas?

– Ele é muito rápido e tem superpoderes…

– Tipo o Super Homem?

– Sssim…

– Nem o Super Homem que é o Super Homem tem tempo de visitar as casas todas durante a noite e para além disso o Super Homem é de faz de conta. O Pai Natal não é?

– Naaaão, o Pai Natal existe…

– Hum… Então e nós que não temos chaminé, temos um exaustor e tu já me explicaste que está uma ventoinha lá dentro para puxar o ar. Ele não se corta?

– Aaaaah… Pois… O pai deixa o exaustor desligado e tira a tampa e a ventoinha para o Pai Natal passar…

– Hum… E como é que ele passa na chaminé? A Chaminé do nosso prédio não é como a chaminé dos desenhos animados, a nossa chaminé só tem uma nesga dos lados e tem uma rede para os pássaros não entrarem. Não estou a ver como é que o Pai Natal passa por ali…

– Passa filho, passa… Ele tira a rede e depois volta a colocá-la…

– Hum…  Esta história parece-me muito mal contada, mas ao contrário do Homem Aranha e do Super Homem, segundo os meus pais isto do Pai Natal é mesmo verdade. Ok, vamos lá escrever uma carta ao Pai Natal…

A partir daqui começam a aparecer outras questões difíceis de se explicar como por exemplo…

– Estes presentes que escolhi são muito caros? Então não são os Duendes que fazem os presentes com magia? Se eu não posso receber os presentes caros, esses presentes vão para quem afinal? Não me digas que vão para o Martim só porque ele deixa que todos os adultos lhe lambuzem a cara toda de beijos e o despenteiem todo? É por isso???!!!  

Se são os duendes que fazem os presentes, porque é que os hipermercados estão cheios de brinquedos?

Se são os duendes que fazem os presentes, porque é que há lojas só de brinquedos?

Se são os duendes que fazem os presentes, porque é que a televisão não para de anunciar brinquedos?

Que raio é que o Pai Natal está a fazer em tudo o que são lojas, Centros Comerciais, Vilas Natal, etc? Relações Públicas?

E os presentes dos avós, dos tios, dos padrinhos e dos pais? Afinal quem é que dá o quê?

Vamos lá ser claros, se a historinha que nos contavam para acreditar no Pai Natal não fazia sentido nenhum há 35 anos atrás quando eu tinha 5, agora é uma autêntica palhaçada e um insulto à inteligência de qualquer criança, pelo que na minha opinião só serve para a tentar estupidificar e fazer do progenitor um mentiroso e manipulador.

«Porta-te bem caso contrário, não eu mas o Big Brother versão Jardim de Infância que vê tudo e sabe tudo a quem nós chamamos de Pai Natal, não te deixa presentes na noite de Natal.»

Que conveniente… Assim os pais podem continuar a acreditar que praticam Amor Incondicional uma vez que tentam passar a ideia que amam os filhos incondicionalmente, o problema é que o Pai Natal (o tal Big Brother versão Jardim de Infância que vê tudo e sabe tudo) só dá presentes a quem se porta bem, é ele que coloca a condição, não os pais.

É conveniente, não é? Agora diz-me uma coisa…

Achas mesmo que isto te liga mais ao teu filho?

De 1 a 10 o quanto é que achas que isto vai pesar na tua credibilidade perante o teu filho?

Pensa nisso…

Para os defensores da fantasia e que defendem que quando as crianças estiverem prontas elas próprias irão perceber que era apenas uma história, gostava de tecer as seguintes considerações:

  • Isso é a filosofia dos partidos que têm estado no poder, ou seja, depois das eleições eles acham que tu já estás preparado e irás perceber que o que foi dito na campanha eleitoral era apenas uma história. Se estás assim tão preparado não percebo porque é que passas a vida a chamar nomes pouco abonatórios a quem te contou uma história de encantar simplesmente porque tinha a ‘nobre intenção’ de te presentear com um pouco de magia, fantasia e esperança.
  • Uma história começa com um «Era uma vez» e termina com um «Fim» e não quando o amigo da escola lhe diz «Tu ainda acreditas no Pai Natal? Granda totó!»
  • «Quando as crianças estiverem prontas» Prontas para quê? Para perceber que foram enganadas por ti? O Pai Natal é uma espécie de preparação psicológica para as crianças saberem que os pais as enganam? Hum… Pais Mais Ligados não enganam os seus filhos, pelo que… Tens a certeza que esse é o melhor caminho a seguir? 

O Natal é uma altura de beleza, magia e uma excelente oportunidade para estimular valores como a fraternidade, a gratidão, o amor incondicional e a partilha, pelo que não me parece sensato trocar isso pelo conceito ‘porta-te bem’ (que é como quem diz: faz o que eu quero) e receberás um presente do gordinho de barbas brancas criado pelo ilustrador Haddon Sundblom para a Coca-Cola que se baseou no São Nicolau e em rituais dos países nordicos.

São Nicolau esse que nunca esteve na Lapónia (era Grego, nasceu na atual Turquia em Patara, viveu e morreu na cidade Turca de Myra) e a única coisa que o liga a meias e chaminés foi quando soube que um comerciante falido que tinha três filhas e por não ter dote para as casar bem, estava tentado a prostituí-las e então passou junto da sua casa e atirou um saco de ouro e prata pela janela aberta que caiu junto da lareira perto de umas meias que estavam a secar. Daí a descer pela chaminé num trenó alado vindo da Lapónia vai um grande passo, certo?

Quanto à roupa do Pai Natal, acredita-se ser inspirada em antigos rituais pagãos do norte da Europa, nomeadamente dos Vikings pois o dia 24 de Dezembro era o pior dia por ser o mais frio e mais escuro uma vez que era o dia em que o sol estava mais longe da Terra. Neste dia o Xamã da tribo acendia a fogueira e enfeitava o pinheiro que era a árvore que mesmo no inverno continuava verde com velas (daí as luzes da Árvore de Natal) e fazia um ritual pedindo para os deuses que a luz vencesse as trevas, a sabedoria vencesse a ignorância, a vida vencesse a morte, etc. Neste ritual de poder e magia o Xamã escolhia um de seus melhores guerreiros para caçar um urso branco que era o símbolo da força dos Vikings para sacrificar e oferecer aos deuses. O guerreiro saia sozinho no seu trenó puxado pelas renas para caçar um dos animais mais fortes e perigosos da floresta, o Urso Branco. Quando tinha sucesso o guerreio voltava com a barba branca e os cabelos cobertos de neve e tinha que tirar a pele do urso e se vestir com a parte dos pêlos branco por dentro e a vermelha por fora como o símbolo da força e do poder dos Vikigns em oferenda aos deuses.

Contado assim já não fica muito fofinho pois não? 😉 

Já agora, o meu filho gosta muito do pai Natal, gosta de fazer de conta que ele existe, diz que ele vive na Serra da Estrela e tem superpoderes. Ele sabe que quem dá as prendas são os pais, os tios e tias e as avós, mas gosta de fazer de conta que o pai Natal tem uma participação especial na chegada das prendas nessa noite.

Ele até acha engraçado o pai disfarçar-se de uma forma muito tosca de pai Natal nessa noite, até ele tem um gorro de pai Natal também. Ele diverte-se usando a sua imaginação e fazendo histórias sobre o pai Natal que nunca lhe foram contadas mas fazem parte da sua criação pessoal, assim como as histórias que ele próprio cria e inventa sobre outros superheróis.

O nosso Natal continua a ser mágico e cheio de histórias, fantasia e muita imaginação. Só não tem mentiras nem condições, pois afinal de contas o Natal não é a celebração daquele que pregava o Amor Incondicional?

E tu, preferes fazer o teu filho acreditar no Pai Natal ou acreditar em ti? Como vais tornar o teu Natal ainda mais mágico e ligar-te ainda mais ao teu filho neste Natal?

Esta foi a minha contribuição desta semana para a Comunidade Pais Mais Ligados, agora quero ver a tua! Aproveita este artigo para manifestares a tua opinião ou até mesmo para abrires um debate sobre o tema. Acredito profundamente que te sirvo melhor se usar o meu tempo e energia a criar novos artigos que te ajudem a tornar numa Mãe ou Pai Mais Ligado. Por este motivo, não entrarei em debates nem poderei a responder aos comentários, mas eu leio todos e ficarei muito feliz em ler o teu. Se este artigo fez sentido para ti, por favor partilha.

Com amor,

António

 

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Um comentário no post “Achas que o teu filho acredita no Pai Natal?

  1. Apesar de quase ter morrido a rir ao ler este texto, o que só por si já valeu a pena, fez-me pensar que como mãe faço muitas coisas simplesmente porque todos fazem, sem pensar realmente no porquê e qual benefício ao meu filho.
    Obrigada, excelente texto. Gosto de ler coisas que me deixam a pensar, sobretudo se ainda me fazem rir.
    Aguardo pelos próximos.


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